Em seu primeiro discurso, Dilma dedicou maior ênfase à sua condição de mulher e ao fato de suceder o ex-presidente Lula.
Tratando a população com a expressão “queridos brasileiros, queridas brasileiras”, ela pediu “paz no mundo”, comprometeu-se a travar uma “luta obstinada” contra a pobreza extrema e chorou de emoção por duas vezes no discurso de posse: ao se declarar “presidenta” de todos os brasileiros e ao lembrar das pessoas que morreram no combate à ditadura militar no Brasil (1964-85).
Ao longo de 43 minutos, Dilma listou vários pontos que deverão receber atenção especial do governo, como o combate à inflação, a melhoria dos serviços e dos investimentos públicos, a garantia de liberdade de imprensa, de opinião e religiosa e a lisura com os recursos públicos. “Serei rígida na defesa do interesse público.
Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia”, garantiu.
A presidente usou a última parte de seu discurso para uma breve biografia e disse que dedicou sua vida à causa do Brasil e que lutou contra a censura e a ditadura, em busca da democracia e dos direitos humanos. “Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático.
Suportei as adversidades mais extremas infligidas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor”, disse.
“Vou governar o Brasil com coragem e carinho. Quero cuidar do meu povo e a ele dedicar os próximos anos da minha vida”, acrescentou.
A primeira saudação feita por Dilma foi às mulheres. Ela disse que sua eleição significou “abrir portas para que muitas outras mulheres, no futuro, possam ser presidentas”.
Em seguida, agradeceu a Lula, classificado como o “presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar no futuro”.
Ela também homenageou o ex-vice-presidente José Alencar – que não pode comparecer à cerimônia de posse por estar em tratamento contra o câncer em São Paulo. “Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá este homem.
E que parceria fizeram o presidente Lula e o vice-presidente José Alencar, pelo Brasil e pelo nosso povo”, afirmou, sob aplausos dos presentes.
Política externa
Em relação à política externa, a presidente preferiu citar primeiro os países da América Latina e do Caribe, da África e do Oriente Médio para só depois reiterar a disposição do governo em aprofundar o relacionamento com os Estados Unidos e com a União Europeia.
“O Brasil reitera com veemência e firmeza a decisão de associar seu desenvolvimento econômico, social e político ao nosso continente. Podemos transformar nossa região em componente essencial do mundo multipolar que se anuncia, dando consistência cada vez maior ao Mercosul e à Unasul”, referindo ao bloco econômico e à entidade que reúne nações sul-americanas.
Dilma reforçou a cobrança do governo Lula pela reforma dos organismos de governança mundial, em especial as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança, e criticou o terrorismo e a corrida nuclear promovida por alguns países.
“Nossa tradição de defesa da paz não nos permite qualquer indiferença frente à existência de enormes arsenais atômicos, à proliferação nuclear, ao terrorismo e ao crime organizado transnacional.”
Oposição
Além de repetir o que havia dito em seu primeiro discurso depois de eleita, em 31 de outubro, quando se disse disposta a “estender a mão à oposição”, a presidente cobrou a mobilização de toda a população para avançar nas reformas propostas.
“É importante lembrar que o destino de um país não se resume à ação de seu governo.
Ele é o resultado do trabalho e da ação transformadora de todos os brasileiros e brasileiras.
O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que juntos fizermos por ele hoje, do tamanho da participação de todos e de cada um, dos movimentos sociais, dos que labutam no campo, dos profissionais liberais, dos trabalhadores e dos pequenos empreendedores, dos intelectuais, dos servidores públicos, dos empresários, das mulheres, dos negros, dos índios, dos jovens, de todos aqueles que lutam para superar distintas formas de discriminação”, afirmou.
Energia
Dilma lembrou a descoberta de petróleo na camada do pré-sal e cobrou a aplicação “com responsabilidade” dos recursos obtidos a partir da exploração do mineral.
“O meu governo terá a responsabilidade de transformar a enorme riqueza em poupança de longo prazo, capaz de fornecer às atuais e futuras gerações serviços públicos de qualidade”, disse.
Para ela, o País “está vivendo apenas o início de uma nova era” de desenvolvimento econômico e social.
“Pela primeira vez, o Brasil tem a chance de se tornar uma nação desenvolvida”, afirmou. Dilma garantiu que esse desenvolvimento será feito preservando as reservas naturais do País.
Em seu discurso, Dilma defendeu ser possível crescer aceleradamente sem destruir o meio ambiente. “Somos e seremos os campeões mundiais da energia limpa.
O etanol, as fontes hídricas e alternativas, terão grande prioridade e incetivo no nosso governo”, garantiu.
Reformas
A presidente destacou a necessidade de pelo menos duas reformas que deverão ser patrocinadas por seu governo: a política e a tributária.
Em relação à reforma política, Dilma classificou como “indeclinável e urgente” uma reforma que mude a legislação e faça “avançar nossa jovem democracia”, fortalecendo o sentido programático dos partidos e aperfeiçoando as instituições, restaurando valores e dando mais transparência ao conjunto da atividade pública.
A reforma tributária foi lembrada para garantir um ciclo de crescimento econômico maior, com estabilidade de preços e redução das “travas que ainda inibem o dinamismo da nossa economia”.
O objetivo, disse, é facilitar a produção e estimular o empreendedorismo.
“É inadiável a implementação de um conjunto de medidas que modernize o sistema tributário, orientado pelo princípio da simplificação e da racionalidade.
O uso intensivo da tecnologia da informação deve estar a serviço de um sistema de progressiva eficiência e elevado respeito ao contribuinte”, afirmou.
Segundo o cerimonial da Câmara dos Deputados, cerca de mil pessoas, incluindo convidados e membros de delegações estrangeiras, participaram da posse da presidente Dilma Rousseff no Congresso Nacional.
Além desse contingente, estiveram no local aproximadamente mil servidores da Câmara e do Senado e 500 jornalistas credenciados
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